quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Coisas em que falhei na vida

Nunca dei seguimento a uma corrente do Facebook. Não encontrei o homem proverbial. Nunca estendi uma máquina de roupa. Nunca sonhei um sonho por que trocasse a vida que vivo. Não sei andar de patins. Não passei do meio de Em busca do tempo perdido e não ultrapassei o meu desgosto por histórias por contar. Nunca tive um porquinho mealheiro. Nunca afaguei o gato Barbieri. Nunca pretendi encher momentos de nada. Não consigo escolher entre Solitude de Billie Holliday ou É com esse que eu vou de Elis Regina. Nunca te convidei para dançar. Nunca pertenci a uma trupe de saltimbancos. Nunca quis perdoar. Nunca consegui dizer "Je suis desolée" sem me rir. Não conquistei o Prelúdio 1 de Gershwin. Nunca tentei deixar de fumar. Não tenho desejo de agradar nem pressa em chegar. Nunca me evadi das prisões que escolhi. Nunca gostei de tremoços nem de sushi. Nunca aprendia a deixar de querer tudo de uma vez. Nem a deixar de querer como quero. Nunca preferi a reputação ao ego. Nunca deixei de amar os teus defeitos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Começou a campanha eleitoral

Trocam-se convicções por opiniões.
Escreve-se mal e fala-se pior.
Se ao menos ouvissem:


Drs e cães

O jovem dr. empregou-se na capital e por lá arranjou poiso. Coisa acatitada, que lhe não permitia albergar o seu canídeo. 
Uns dias depois, acercando-se do Ti Joaquim - homem bonacheirão da terra - o sr. Fausto pediu-lhe que acolhesse o cão de seu filho, até que este tivesse condições para o levar. Por pouco tempo e com pouca maçada, evidentemente, que o dr. haveria de lhe deixar ração suficiente e de o recompensar pelo incómodo. Seria um favor de amigo. Só não ficava com o cãozito ele próprio, porque a mulher, coitada, sofria de alergias.
No fim de semana seguinte, chegou o dr., que deixou o cão e levou a trela. 
O Ti Joaquim limpou o despovoado galinheiro e nele instalou o cão que alimentava com os restos de comida que trazia do restaurante de borda de estrada, onde servia às mesas. O dr. vinha passear o cão todos sábados à tarde, trazendo sempre consigo - apenas e só - a trela.
Sucedeu que o cão aprendeu a saltar a cerca que delimitava o espaço outrora ocupado pelas galinhas, a roer os vasos das flores, a esburacar a horta, a roubar as uvas e, finalmente, a saltar os muros do quintal para a estrada. O dr. só conseguia vir de 15 em 15 dias.
O Ti Joaquim prendeu, então, uma trela à coleira do cão. Suficientemente grande para lhe permitir passear-se pela capoeira e suficientemente pequena que para que não pudesse saltar a cerca.
Chegou o dr. com a trela. Foi-se o dr. com a trela. Regressou o dr., pouco depois, sem trela, mas com a guarda. Foi-se o dr., com a guarda, mas sem o cão. 
Dias depois, o Ti Joaquim foi constituído arguido em processo crime, acusado de maus tratos a animais. O cão


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Crónica de impropérios adiados

Sábado, ao final da tarde, desci à garrafeira para escolher o vinho a servir. 
O J. Vaz, meu amigo desde os tempos que a memória residente recorda, haveria de chegar para jantar. E, com ele, traria invariavelmente, uma garrafa de vinho do Alentejo. (Abro aqui um parêntesis para vos confidenciar que o J. Vaz, aparvalhadamente, prefere os vinhos do Alentejo aos do Douro.) Tão certo ele trazer um tinto alentejano, como eu levar-lhe um do Douro.
Enquanto me decidia entre Duas Quintas ou Quinta do Crasto, dei-me conta de que a Herdade do Rocim ganhava na proporção de 3 para 1. 
Transtornado, vacilei. A predominância era-me amarga e inadmissível! Resolutamente, decidi repor o equilíbrio; restaurar as minhas preferências ao seu lugar de direito; superar os adversários, inclusive em número; e, pelo menos na minha garrafeira, conceder vitória aos do meu coração (não, isto não é um post sobre o meu Benfica).

Durante o jantar, brindámos aos dias decrescentes com um Herdade dos Grous. 


No more sad songs

Depois de meses sem conseguir responder aos vossos comentários aqui no blog - o que, pessoalmente, lhe retirou apelo - eis que tudo se recompôs.
Diz-me Tal Qual que foi necessário instalar um novo browser e não explica o que aconteceu para me ser possível publicar mensagens novas e comentar em outros blogs, mas não no meu.
Enfim, está ultrapassada a situação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Quando os quarenta são os novos cinquentas

Neste início de ano letivo, ao chegar a casa da escola, diz a minha filha com a solene convicção própria dos seus 12 anos: -"Este ano, a minha disciplina preferida vai ser francês!"
Sendo o primeiro ano em que vai ter aulas de francês, perguntei-lhe o porquê de tanta certeza. Ao que me respondeu: -"Porque o meu professor é liiiiindo!"
Não achando graça nenhuma ao motivo - e, reconheço, perdendo um pouco o à-vontade -, questionei: -"Que idade tem o teu professor?"
-"Ora, pai, todos os meus professores têm mais de 50 anos!"

...e foi então que engoli em seco. É que eu fui colega de carteira do professor de biologia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ainda não foi desta que acabei um jogo de monopólio

Catedrais de espanto. Cidades vibrantes. Águas por mapear. Pete Seeger. Paisagens que da beleza são modelo e espelho. Madrugadas em galopes de alazão. Cartas de Gorki. Proverbial tolerância e desconcertante pachorra. Prazeres efémeros. Serge Reggiani. Lugares de sempre. Ferrat. Poemas eternos. Bartoli. Montes de silêncio. Ravel. Acordes dissonantes em pretas e brancas. Paz dos dias. Tempos saborosos. Segredos de hinos. Crinas ao vento. Gemidos de dor. De prazer. La Boheme. Pedra que é degrau. Lluis Llach. Fragas de contemplação. Horas por contar em lendas contadas a idades de generoso acreditar. Escolhas bramantes. Gilbert Bécaud. Interesses provisórios. Volúpia. Deslumbres do quotidiano.

Se me apetecesse escrever sobre as férias...

terça-feira, 27 de junho de 2017

O enigma dos blogs

Sento-me a ler os blogs da minha esplanada e dou por mim a adivinhar desconhecidos.
Reconheço o ornitólogo pelo café frio que trina, o senhor da agência funerária pelos textos monocórdicos, o contabilista pelos posts curtos, o bancário pela prosa preocupada e o banqueiro pelos temas gaiteiros. Os professores são ainda mais fáceis de distinguir: no seu estendal cabem alunos e avaliações e pouco mais. Os informáticos adoptam o casual friday e o acordo ortográfico abreviado. Os cientistas calçam um sapato castanho e outro roxo. Os arquitetos têm um blog polido e os médicos, um limpinho. Os engenheiros costumam comentar-se, tratando-se mutuamente por "sr. eng.", apesar de se conhecerem desde o bibe amarelo. Os srs. drs. escolhem palavras caras sobre as últimas leituras e os políticos beijam bochechas "à" anos.

 Porém, nesta esplanada, o que me atrai não é tirar a pinta pela carga de quem escreve. O que verdadeiramente me agrada é adivinhar almas...
O que haverá na gaveta da mesa de cabeceira da mãe extremosa? O que faz miss b. à noite? Quanto é preciso provocar a dama para sentir a sua garra? Com que sonha a b.? O que dirá o papelito quase desfeito que madame guarda no seu bloco de notas? Porque precisará o s. de capas falsas para o livro que lê no metro? O que levará y. a desperdiçar desejos? A aprumada muda os lençóis após uma noite? O k. guarda os bilhetes depois de os alardear? O que levou a doce a entrar no autocarro errado, esta manhã? A senhorita está nisto para o engate ou pelas receitas caseiras? O que tira o sono à dona do gato? A que saberá o beijo da pirata?

quinta-feira, 22 de junho de 2017

terça-feira, 20 de junho de 2017

De que cor é o teu céu?

Cruzamo-nos e detemo-nos. Sorrimos. Cumprimentamo-nos com palavras banais. Trocamos dois dedos de conversa do quotidiano. Despedimo-nos com beijos. Olhamos para trás a acenar. Há anos que não a via.
Eu vou para os Anjos. Ela, não sei.

Um golo de café

-"É impossível ir por aí! Sem caminhos abertos, o corpo não passa."
Então, as mãos fizeram-se sonho e o homem voou.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sinopse




Desintoxicar com leite

Não sei se o centro de Portugal é o seu coração. Sei que está ferido o centro de Portugal. Sei que está ferido o meu coração. E dói-me - provinciano me confesso - com a devastação que as desgraças longínquas não igualam.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Isto ainda vai acabar bem

Importa-me pouco se a viagem acaba ou não, se recomeça ou se se repete. Haverá sempre mais para ver, e isso basta-me. Sou dos que não quer viver muito, apenas o suficiente. Dizerem-me que a morte é certa é como eu dizer à minha filha que Hogwarts não existe. Só pessoas que exclamam "olha, um urso polar albino" quando vêem um urso preto, dizem coisas daquelas. É gente que nem sonha que até a música se solta de si em busca do sol.

Tenho a certeza de que, quando chegar a minha hora, saberei ir à minha vida!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Toda a gente sabe que nos blogs não há amigos*

Nos blogs, limitamo-nos a inventar de espanto palavras de maresia, sem cobrar das horas gastas. Nos blogs, limito-me a mentir com (quase) todos os segundos que o tempo tem.
No blog, transgrido em confissões que nunca fiz e persisto no tempo que me falta. No blog, chego a dançar um tango intenso, no convés de um barco que não navego.
Com o blog, partilho palavras comuns e insuspeitas, conheço escritas admiráveis e arrepio-me com novos tons.
Pelos blogs, antecipo autores distintos e absolutos da catarse que vale a pena. Pelos blogs dos meus, chego a antecipar a entrada do dia num novo post.
Os blogs apreciam a distância indelével da corporalidade e mantêm a presença viva do pensamento.
Neste blog, perdi o conto às tardes convividas e às histórias instintivamente tecladas. Senti a cumplicidade do outro lado da distância. Recolhi o que me sobra em pensamentos. Abriguei-me da nostalgia do que já não é e do que me engano.
Este blog dá-me conta de outros cantos, sustenta-se em motes diferentes, tutela estradas, ignora vassalagens prestimosas, aplaude sensibilidades benignas.
Houvesse alma, como há talento, e talvez - nisto dos blogs - existíssemos amigos.

Semântica ao jantar

Ela: - "Tenho mesmo de comer a maçã toda? Sabe a azedo..."
Ele: - "Vá lá, toda não... Sabe mesmo a azeite!"

terça-feira, 13 de junho de 2017

Outro Ente também está prontíssimo para um pouco de blogs à moda antiga



Foi ontem ainda agora

Ontem, não saltou do carro assim que lhe abri a porta. Ontem, não tentou lamber-me as mãos com o focinho-sempre-húmido quando lhe falei. Ontem, peguei-lhe ao colo e pesou-me como nunca. Ainda agora, vivíamos jornadas de léguas e lebres, de entendimentos e silêncios, de festas e  quietude. Eu também não voltei a caçar.
Ontem, pediram-me mais do que patrocínios. Culpo a nostalgia dos tempos de aeromodelismo. Deixei-me envolver pelos doze que me calharam e acolhi-os com o temor de não ser. Foi um ano de sentimento do pouco tempo.
Ontem, o meu filho deu uma tesourada nas pestanas e a minha filha passou a fechar a porta do quarto. Ainda agora, precisavam que lhes cantasse a música do ursinho. Ah, esta santa saudade, reverenciada pela centelha eterna do sonho que ouso acreditar infinito.
Ontem, problemas de circunstância não pareciam irrisórios e a neblina das horas cinzentas desaparecia sem deixar marcas. Ainda agora, não acredito grande coisa no que - dizem - acabou por dar certo.
Ontem, não adiei no tempo o teu sorriso, mesmo sabendo que a alegria é breve e as manhãs submersas.
Ontem, encostaste-te a mim e fechaste os olhos, como pertence a uma mulher que quer ser beijada.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Porque o amor não tem chulé



Psiquê, imortalizada por Eros; Luísa, a quem Basílio aportou uma existência superiormente interessante; Alcíone, eterna em Ceix; Dulcineia, que Dom Quixote tornou norte dos caminhos e estrela da ventura; Andrómeda, salva por Perseu; Susana e Fígaro, inesquecíveis a uma só voz; Júlia, resgatada por Winston de 1984; Jacinto, celebrado pelo canto de Apolo; Ares e Afrodite, unos em Harmonia; Eurícide, por quem Orfeu chorou lágrimas de ferro; Papageno e sua Papagena; Ártemis, acompanhada por Órion; Filémon e Baucis, que permanecem unidos pelos troncos;  Aurora, beijada por Phillip; Branca de Neve, ressuscitada pelo seu príncipe encantado.

Em cima: O beijo, de Rodin, onde se comprova, como se a vida não nos ensinasse quanto baste, que o amor até lava os pés.

(À consideração da espirituosa Cuca, a Pirata.)


Banda sonora para hoje

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A imanência de Éris

Se pudesse bastar-me com "a mais bela" da festa de Peleu e Tétis, como Páris; se a minha dúvida não fosse inabalável e persistente; se a demanda fosse menos exótica e genuína; se não  me perdesse em excessos de vendaval e em volubilidades da vida; se acreditasse em absolutos inviáveis, em perplexidades prolixas, em distâncias da certeza; se calasse as desconfianças extravagantes, até de mim...
Entretanto, basto-me com pão com queijo; amazonas deslumbrantes, porvires de graça; temperos do frio; terras férteis semeadas, como dantes; noites imensas; génios sem ansiedades; memórias diletantes e coleções de variados amores.

Para sempre

A necessidade incessante de te buscar que me pulsa nas veias e alenta será, talvez, a obra maior do sentir perenidade.