quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Marketing

Ainda o jantar ia a meio, quando se ouviu: "depois, podemos dar um passeio?". Traduzi, para os demais convivas, que o intuito dos meus petizes era caçar pokémons e prometi-lhes que, mais logo, iria caminhar com eles.
Entretanto, apercebi-me de que os petizes começaram a trocar animados sussurros e risinhos com Edite.
À hora da despedida, sou informado de que Edite "também vai caçar pokémons connosco". A filha tratara de lhe instalar o jogo no telemóvel e até já tinham escolhido uma menina com um "nome fixe" (provavelmente, porque este pai escolhe nomes como lçkjlkh ou kjggjhg).
Enfim, naquele serão, ele caçou com o meu telemóvel e ela com o de Edite. Não houve insatisfações com o número de bolas gastas. Ninguém se queixou das vezes em que os alvos fugiram. O pai não teve de controlar o tempo para ir alternando "agora é a vez do teu irmão" com "agora dá o telemóvel à mana".
Desde então, todos os dias, invariável e insistentemente, massacram-me com a ladainha: "podes convidar a Edite?".

...cheguei a ponderar comprar mais um telemóvel.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quando os homens choram

Na última reunião de projeto, o orientador pegou numa garrafa de Barca Velha e ofereceu-a ao Pablo, estudante de Erasmus empenhado e promissor.
Para o jantar de despedida, Pablo convidou o orientador e um punhado de colegas seus, prometendo cozinhar um borrego divino.
Os convidados, sentados à mesa, vendo Pablo assomar à porta com um fumegante tabuleiro, fizeram coro para que se abrisse a Barca Velha.
Então, Pablo arregalou os olhos, baixou-os e fixou-os no fumegante tabuleiro...

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Caramba mulher

Cláudia Filipa pertence à classe de comentadores ipsotalqualmente enigmáticos, cujos comentários são bem mais do que o sopro da solidão em velas de frivolidade.
Desapareceu destas festas de amigos, vai para tempo indistinto. Foi avistada, pela última vez, em conversa de bom gosto apurada no lume da paciência e temperada com argúcias intelectuais.
Faz-me falta, para cavalgar travessuras de epicuros menos maus e para pugnar por discursos quase conseguidos em novelas ainda por escrever.
Procuro-te nos escombros das palavras.
Ainda está tudo por dizer...



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Se este blog tivesse linha editorial


"Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está  lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu."
Margarida Ferra, Sorte de principiante

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Pillow talk

Lá por gostar que me façam a cama, não significa que me deite em todas as camas que me fazem.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Relógio do tempo

A imensidão desta terra chã, confluência onde se move e abraça a minha história; a tradição do velho solar; a carícia do melhor vento debaixo da alpendrada; a beleza em variedades de sonho; a mística das velhas paisagens; a inocente e expressiva fantasia do espaço; a aristocracia das gentes; os ares telúricos; os espelhos que mostram o lado de cá; os livros que revelam o que mora escondido nas palavras; os carreiros sem destino; os muros sem fronteiras; as madrugadas encontradas a poente; os amanhãs sonhados nos alvores do fim da tarde; o torpor induzido pelo canto das cigarras; os grilos que se deixam apanhar em caixas de fósforos com folha de alface; o esquecimento do que nunca soube; as fotografias que me curam de mim.
Por mais anos que passem, continuo a olhar a herdade com olhos de menino atónito.

As mães não dormem

Acordámos que trocaria o futebol pela natação. (Não pensem que apenas o facto de me ser doloroso vê-lo jogar com o equipamento do sporting pesou na decisão.) As matrículas para a nova atividade decorreriam em setembro. Acabo de ligar para saber se já tinham aberto as inscrições. Informaram-me que ainda há vagas, mas alguns horários já estão preenchidos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O minueto de Boccherini

Eu teria dezasseis anos e ela pouco mais. Era a sobrinha do homem dos toldos e fazia os meus sonhos de Agosto. Portento de juventude e deusa. Corpo de eloquência profana e gesto de sensualidade. Cobiçava-lhe os olhares com o prazer ingénuo de a olhar. Como Régio, morava no longe e na miragem. E também no perto e na voragem. Reclamava-lhe as respostas no silêncio dos lábios. Ardia na urgência da catarse que habita a pele e nos invade por dentro. Ela era a sucursal existencial das ninfas.
Este Agosto, tornei aos toldos do Senhor Firmino... Pim!

Dependência

Preciso de uma dose diária de instantes.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dores de crescimento

São 07:00 horas. Saio de casa para correr. O petiz, na sua bicicleta sem rodinhas, acompanha-me. São 5 quilómetros, com paragens apenas para não atropelar os cães que se lhe atravessam à frente e na padaria. São 08:00 horas. Regresso a casa. Sinto-me um atleta olímpico: consegui acompanhá-lo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A bola de gelado só não respondeu à chamada porque lhe preguei uma rasteira

Depois de mais uma caçada aos Pokémon, esvazio os bolsos e inventario: uma carteira; um maço de cigarros e um isqueiro; um lenço de pano e um pacote de lenços de papel; uma colher de plástico rosa fluorescente e uma palhinha "bazuca"; o aparelhómetro da net e uma power bank; as chaves de casa e do carro. Não fora usar cinto...    

Elementary my dear

A imagem do post anterior mostra um embrião equino. Trata-se da primeira ecografia da gestação da égua I.
Agora, é só esperar que tudo corra bem... durante 11 meses.

sábado, 13 de agosto de 2016

Algarve em agosto? Finalmente!

Convidámo-nos para o mesmo areal dourado, que pisamos após as gaivotas nele terem imprimido as suas pegadas. Bom dia convivas de todos os lados! Partilhemos este concerto de sons graves, executado com mestria por ondas sem maestro, pleno de notas que desconheço, de que nunca me canso, e que não sei descrever, sem que nos perturbemos. Por toda a parte, pessoas de sorriso franco respiram a mesma imensidão. Na minha praia: nadadores salvadores, de tão compenetrados, irradiam segurança; crianças serenas constroem castelos de areia molhada; adolescentes jogam animadamente com suas raquetes; jovens experimentam as suas novas pranchas; pais vigilantes desenham pistas de caricas em areia seca; mães atentas ensinam o jogo do prego; o rapaz das bolas de berlim não se esquece dos guardanapos e nós elegemos as favoritas; o senhor das bebidas não vende água aquecida na bagageira do Renault 5 e nós ignoramos a arca frigorífica atrás da banca de jornais; o pescador guarda as suas garrafas vazias no saco com o mesmo desvelo com que coloca o pescado no balde; o homem do cigarro ondula até ao bar da praia e a mulher do telemóvel baixa o som. Este infinito de mar, sol e areia... por obséquio, ocupai um dos lugares aqui ao lado.
   

Boo


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Tarde é o que nunca vem


Com uns dias de atraso, eis o postal pedido por Cuca, a Pirata e a citação para o Senhor Ministro.

Beijos nas damas e abraços nos valetes

Como se escreve um post de recomeço? Deveria entrar de fininho, como se nunca tivesse saído da sala? Oferecer o desadequado "fui ali comprar cigarros e já voltei"? Ou contar destes dias? Deveria inventar contos mirabolantes ou deixar tudo em reticências? E se me limitar ao gasto "vocês sabem lá"? Talvez devesse retomar a cadeia dos dias felizes ou recordar a pedagogia das orelhas de burro. Hesito entre regressar apenas quando souber como e regressar para aceder a pedidos. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Gambozinos de última geração

Começámos a sair para a rua, ao lusco-fusco, há quase uma semana. A voltinha, cada vez maior, é guiada alternadamente, ora por ele ora por ela. Sigo-os agarrando-lhes os colarinhos, para que não parem absortos no meio da estrada nem deem cabeçadas em postes ou tropeções em lancis. (Às vezes, lembro-me dos animais que abocanham as crias pelo cachaço e penso que essa seria a imagem acabada da nossa figura.) Rendo-me à pontaria dele e ao domínio das regras dela.
Entretanto, apanhámos 27 Pokemons - é certo que 13 são morcegos, mas se aparecem é para serem caçados e de nada adianta explicar a falta de interesse nos repetidos. O interesse deles é caçar! A adrenalina surge da vibração na sua mão assinalando a presença de outro ser. As bolas existem para ser usadas e poupar munições é conceito que lhes é alheio.
Ontem, eclodiu o primeiro ovo "ó que fofo" e só faltou pedirem para o dinossauro ir morar lá para casa. Também atingiram o almejado nível 5 e puderam, finalmente, entrar em ginásios. Porém, o seu mais forte com 113 não era competição para os que ali encontraram, com uma força de várias centenas e até milhares de pontos. Decidiram não sacrificar os seus bonecos "tão giros" e empenhar-se em fortalecê-los.
Com esta caça aos gambozinos já fomos ao cruzeiro, ao castelo e à biblioteca, a várias rotundas e a alguns painéis de azulejos, e já descansámos sentados nos bancos de uma avenida que diariamente atravessamos e onde nunca tínhamos estado. A sério.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Palavras simples ao fim do dia

Doce de tomate com pão de ló. Limonada com limões quentes e gelo. Apetece-me tanto um magnunzinho. Relva não tão verde. Vais regar? Também posso? Vens brincar?  Sou eu a marcar. És tu a apanhar. Que falteiro. Isso não vale. Já chega. Corre! Mais não. Quieta Milú! Bruta Hara. Ai, ai, são sempre a mesma coisa. Estava-se mesmo a ver. É uma ferida!, dói-dói é de bebés. Já leste esse também? Vou comer-te o umbigo. Não és capaz. Posso ficar só um bocadinho na tua cama, no mimo? Vá lá, vá lá, vá lá?! Papá. Amo-te muito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Simulacros de morangueiros desconstruídos


De como quem vai à guerra dá e leva...

(A)Cedendo ao plágio - fim

Carta aos homens que nunca amei
Vim para Pirata para fugir aos homens que me bafejavam declarações de amor imbuídas de mau hálito. Neste navio ninguém cheira mal da boca e, parecendo que não, isso não é desprezível no aumento da minha qualidade de vida.
Nunca gostei de homens estagnados e de imaginação estéril que nem para movediças dunas serviria. Não os quero lá em casa vivendo um maniqueísmo simplista. Repugnam-me a dogmatização da vida, ainda que sob capa farisaica, a iluminada perfeição, feita da remissão de pecados, e a verdade absoluta, disfarçada de manto teórico.
Alguns dos homens que não amei ensaiaram escrever-me poemas e citar-me Borges, mas fiz-me de surda e disse-lhes que não sei ler.
Que me interessa quem conduz o carro, se neste navio que capitaneio aboli credos e crenças, etnias e intolerâncias e institui uma resolução maior de respeito pela diferença e apreço pelas divergências? Na caminhada amadora dos meus dias, repleta de dedicação, humildade e esforço, não é a glória que me compensa mas o lampejo da lua.
Escolhi apaixonar-me pelo mar, não para me tornar plácida sereia de candura e cauda cintilantes, mas para ser amante do infinito, profundo e imprevisível. Para poder ser errante sem nunca errar e poder cambiar o sentido da rota sem que, no fundo, nada mude. Sou menos andarilha do que me julgam, atracada à sereia que em mim também habita. E, consumo-me nesta luta titânica, sem saber o que será melhor escolher. Sei, porém, que a sereia está condenada a não ganhar. Pelo menos, enquanto não usar sapatos.
O mar não corre sempre. Às vezes, fixo-o a cinzel e escopo numa fantasia naufraga. Nesse instante, arrependo-me com um grito fugaz de raiva súbita pela falta de movimento. Então, retomam as ondas prenhes de silêncio e despertam as palavras num arrepio lento, em confidências que só eu escrevo, em canções que só eu danço.
Aos homens que não amei faltou o lampejo de um caminho desconhecido, feito corpo e sentimento. Faltou o talento do gesto, da vontade, do beijo. Faltou o êxtase do sonho cumprido. Os homens que não amei não souberam ser alento, alimento interior, essência do meu templo, sustento das palavras que reinvento, entusiasmo de algo mais do que procuro.
Não é que não compreenda a história dos meus desamores, é que ainda está longe de começar a minha história de amor.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

(A)Cedendo ao plágio II

penteio-me com um pente de marfim e casca de ovo. enquanto deixo os olhos vaguearem pelo espelho e fixo-me, nua, no sinal castanho que me diferencia a mama esquerda. os dentes ásperos, em contínuo movimento, entranham-se-me pelos cabelos adentro e percorre-me um frémito de prazer. se ao menos o Dantas me mordesse o lóbulo da orelha em vez de passar o tempo a segredar-me joies de merde. pelo espelho vejo o piaçaba de aço escovado que se esconde atrás do omnipresente aquecedor a óleo. ainda não é desta que pinto as unhas de cerejas. não gosto de envernizados, tratados, arrebitados, salamalecados. se o piaçaba fosse envernizado, refletiria o meu retrato como um espelho. seria tudo tão menos escatológico, se o passado soubesse ocupar o seu lugar, em vez de invadir o meu presente. não é me esteja a cagar, mas estou farta de apertos. hoje, vou sem soutien. 

(A)Cedendo ao plágio

Ontem, Macaquito relatava como tinha feito uma nova amiga, com quem passara a ir procurar caranguejos nas rochas:
- Ela é uma polonesa e não sabe falar português. Nem sequer sabe falar inglês...
- Macaquito, tu também não falas inglês.
- Mas eu sei gestos!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Teosofia

Não é preciso ter estado em Nice. Não é preciso ter memórias da cupidez feita no Negresco. Não é preciso ter fitado a Côte D'Azur com olhos clandestinos...
A exuberância da liberdade, da igualdade e da fraternidade não vêm em guias de viagem. Vivem-se em toda a parte. Numa festa de aldeia, na marina, num festival de verão, num concerto ao ar livre, no meio da multidão, num passeio solitário.
Chegam notícias de demónios de um deus que não conheço - imagens tão diferentes da cosmopolita Promenade que com vagar e paz calcorreei - e invade-me um sentimento de maresia, em jeito de catarse, para que o mundo não me morra de desumanidade.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O plágio não é só um problema, também é um crime


Há coisas que são e não poderiam não ser e outras que não são, mas vão sendo...
A apropriação de textos originais publicados em blogs é crime.
A apresentação desses textos como criação do agente é crime.
O plágio viola a individualidade.

À laia de fundamentação*, mas na verdade é só porque me apetece:
Artigo 12.º (Reconhecimento do direito de autor)
O direito de autor é reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade.
Artigo 213.º (Regra geral)
O direito de autor e os direitos deste derivados adquirem-se independentemente de registo, sem prejuízo do disposto no artigo seguinte.
Artigo 196.º (Contrafacção)
1–Comete o crime de contrafacção quem utilizar, como sendo criação ou prestação sua, obra, prestação de artista, fonograma, videograma ou emissão de radiodifusão que seja mera reprodução total ou parcial de obra ou prestação alheia, divulgada ou não divulgada, ou por tal modo semelhante que não tenha individualidade própria.
2 – Se a reprodução referida no número anterior representar apenas parte ou fracção da obra ou prestação, só essa parte ou fracção se considera como contrafacção.
3 – Para que haja contrafacção não é essencial que a reprodução seja feita pelo mesmo processo que o original, com as mesmas dimensões ou com o mesmo formato.
4 – Não importam contrafacção:
a) A semelhança entre traduções, devidamente autorizadas, da mesma obra ou entre fotografias, desenhos, gravuras ou outra forma de representação do mesmo objecto, se, apesar das semelhanças decorrentes da identidade do objecto, cada uma das obras tiver individualidade própria;
b) A reprodução pela fotografia ou pela gravura efectuada só para o efeito de documentação da crítica artística.
*Todos do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.










quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mental coach e blogs

Pipoco Mais Salgado está para Senhor Ministro assim como Susana Torres está para Eder?

Nem sempre acaba bem

Não somos tantos que não os conheça a todos. Alguns já cá estavam, outros foram trazidos por mim. São momentos bons, aqueles em que formamos equipa e acreditamos nas pessoas que escolhemos. Depois, vem a aprendizagem, a adaptação, o trabalho e, eventualmente, a rotina. Muitos nunca a sentem ou, pelo menos, não cedem. 
Prefiro recuperar um trabalhador a substituí-lo, ainda que isso implique "voltar ao início", explicar de novo, exigir as coisas pequenas que estavam pressupostas, voltar a formar, acompanhar de perto. Normalmente, consegue-se (re)motivar e recuperar um bom elemento para a equipa.
Porém, não é possível andar sempre em cima de uma pessoa, nem eu tenho feitio para polícia, nem ao trabalhador agradaria a vigilância constante...
Acaso tivesse sido mais polícia teria, agora, de ser menos carrasco?