sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Resposta a uma provocação

Naquele tempo, os sons gastos saíam de dedos novos e soavam em acordes de encantos e em métricas evolutivas, regados a traçadinha e embrulhados em capas pretas. Estávamos numa das mesas de canto do Pratas e entoávamos "Só o meu é tão velhinho/Inda se não foi embora" quando a vi entrar, caloira de tranças pretas e nariz no ar. Lembro-me da graça com alinhou numa brincadeira de praxe trazendo-nos os jarros à mesa. Ela tinha traços sugestivos e uma sensibilidade evocativa. Tinha uma voz meiga e um olhar tão doce que é difícil explicar. Guardo dela a memória de um puro e genuíno acreditar, de um sonho convertido em sirene na tempestade.
Juntos, descobrimos estímulos que não sabíamos; partilhámos a tranquilidade do pôr-do-sol do outro lado do rio e demorámo-nos em locais de sonho de vida inteira. O normativo previsível da harmonia era reconfortante e desconcertante.
Ela era o meu planeta pessoal, desejado, despovoado, sereno e inteiro. Um santuário de indulgências concedidas, onde me lia páginas finais de contos onde cabiam os dias todos. Tinha o humor exótico das charadas de quem se alimenta de dúvidas.  
Vivemos uma felicidade sem adorno. Partilhámos um grau decente de demência. Satisfizemos fantasias, necessidades de improviso, sedes de absoluto. Falámos dos sons, do infinito, do bem, do rio, da nudez, da volúpia, das lágrimas, das estrelas, do cansaço, da verdade, do medo, do desejo, da culpa, dos beijos, da escuridão do quarto, da cor dos olhos.
Queríamos tudo sem saber nada do que procurávamos.



Então, eu era "deveras romântico" e ligava-lhe de um Motorola para um Mimo azul, só para lhe dizer que a amava.


24 comentários:

  1. OMG!! que Cuca, a Pirata, não venha a saber...
    Batalha naval! Cimitarra Purpurinas ao fundo :D

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    1. Caro Anónimo,
      Cuca, a Pirata nada tem a temer. Aprisionou-me quando já sabia o que queria.
      Bom dia,
      Outro Ente

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    2. Como assim cimitarra purpurinas ao fundo?
      Estes incréus estão a intrigar contra o nosso amor, Outro Ente!

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    3. "Pimitarra Purpurinas" não deixa de ter um som agradável... talvez num próximo post lhes conte.

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  2. Ahahahahahahahahahahahahahahah tá o caldo entornado (a sopa) !

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    1. Desde que não queime nem deixe nódoa.
      (É isto "uma conversa de surdos"?!)

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    2. Outro Ente, "I just called to say I love you" é conversa de cegos. E de pessoas deveras românticas, 'tá visto...

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    3. Lady Kina,
      Fico lisonjeado por me ter ligado.
      (Dizem que o amor é cego.)
      Um beijo,
      Outro Ente

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    4. Há nódoas que enfim...(em calças brancas p.ex.)

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    5. E baba de cavalo em t-shirts brancas? Não sei porque insisto em dar-lhes maçãs.

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    6. E de camelo?! :D
      Tanta roupa suja.

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    7. perigosíssimas as maçãs!! que o diga eva!

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    8. maçã com eva. baba com cavalo. ãh?!!

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    9. acontece acontecer.

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    10. Quando damos maçãs a poldros, não basta colocá-las na palma na mão e vê-las desaparecer duma vez, como a cavalos adultos. É preciso segurá-las enquanto lhes vão dando dentadas.

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    11. Vi...que romântico, doce Ente.
      Beijo no coração.

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  3. Caro Outro Ente.
    Esse belíssimo texto, numa doce recordação de tempos idos, só vem demonstrar o quanto continua 'deveras romântico'.

    A doce Maria tinha razão!!

    Feliz fim-de-semana.

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    1. A culpa é do Stevie Wonder.
      Um beijo,
      Outro Ente

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  4. Ah, grande romântico! :D
    Agora já pode dedicar um poema de cimitarra na mão à pirata mailinda da blogo! Isso é que era de valor! :)

    Beijinho, caro Ente :)

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    1. Outro? É uma hipótese. Veremos.
      Bom dia Maria Eu.

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  5. Mas o que é isto, uma batalha... naval? É que eu só já tenho um pobre submarino *lá d'aqueles* e em muito mau estado... Ai!!! Até parecem ceguinhos....!

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    1. Querida Teresa,
      Sempre que partir à conquista (dos jogos de tabuleiro e não só), será o meu bardo. Junte-se à tripulação e seja bem-vinda a bordo.
      Bom dia,
      Outro Ente

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  6. Como diria o René, não o da série Allo Allo, esse também muito sapiente na nobre arte do amor, mas o Descartes, “Os homens que se emocionam com as paixões são capazes de ter mais doçura na vida”.
    Isso não são borboletas na barriga, são dragões, bom proveito.
    Ab
    Misha

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    1. Meu caro,
      Prefiro mousse de chocolate e crumble de maçãs da quinta.
      Abraço,
      Outro Ente

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