terça-feira, 31 de maio de 2016

Intervalo: filme para o serão


Prenúncio: rejeitar-me-ás pela fantasia dos finais infelizes

Pronunciarás aos meus ouvidos monossílabos confessórios e confortar-te-ás com todas as sílabas da minha boca. Absolutórias e condenatórias.

Prelúdio do fim: nascer-te-ão as letras que morrerão em mim

Não preciso que me dês o teu número no aperto de um elevador. Conheço as docas onde atracas, os mares onde te procuras e os tempos dos tempos que te marcam. Levar-te-ei a falar com Medusa e ressuscitar-te-ei Estrelita, para que as possas matar outra vez vezes sem conta. Ensinar-te-ei a contabilidade das almas desesperadas. Recuperarei todos os teus Klimts e regarei as tuas árvores. Mesmo as mortas. A cama não será um monstro verde, nem estará deserta. Tu escolherás ser Bacall e eu serei daqueles que preferem Bacall.

No final, reassenhorear-te-ás das cargas dramáticas que se vão esvaindo em eterno retorno e voltarão a brotar em ti histórias de desencantar. 

(Ao longo de 7 dias e 7 noites conquistarei e despedaçarei o coração de Cuca, a Pirata. Neste sentido, apelo aos vossos valorosos contributos em prol da linha editorial de  Stars & Mythical Creatures.)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

À espera que a caravana passe...

(Jan Fabre)

Será mais ou menos isto

Não estudo nem deixo de estudar com os meus filhos.
Se precisam que lhes segure o selim para aprenderem a andar de bicicleta sem rodinhas, seguro-o. Se não conseguem atar as sapatilhas, o melhor é comprar das de velcro. Quando dominarem o laço poderão ter as All Star desejadas - estarei a compra-los? Se não sabem o que é uma hipérbole, perguntam. Se precisam de um poema, procuramo-lo juntos e, provavelmente, escolheremos Liberdade. Se estão a aprender a ler ouço a Galinha Ruiva e o Patinho Feio em versão nível 1, vezes sem conta. Se vão ter teste e dizem "papá, vê se eu já sei?", pego no manual e limito-me a fazer perguntas. Por isso, diria que não, não estudo com eles.
Por outro lado, quando me pedem, ensino-os a sublinhar os manuais, ensino-os a não estudar por apontamentos, ensino-lhes a matéria que não compreenderam, ensino-lhes a importância do rigor, ensino-lhes que devem ser o melhor que conseguirem ser, ensino-lhes que os resultados dos outros não são bitola para eles, ensino-lhes que ninguém é perfeito e que é normal ser menos bom nalgumas disciplinas, ensino-lhes que os excelentes também falham, ensino-lhes que o 19 pode não ser muito bom e que o 15 pode ser motivo de orgulho. Por isto, talvez sim, talvez estude com eles.
Seja como for, continuarei a fazer pelo melhor, ainda que amanhã possa fazer diferente.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Outro Ente esclarece como (também) ocupa as suas crianças nas férias de verão

Percorro a avenida das tílias e venho sentar-me neste banco de madeira, debaixo de uma azinheira. Olho as folhas secas caídas pelo chão. Ao lado, as ervas daninhas teimam em crescer por entre a calçada. Abaixo, a salsa saiu dos seus canteiros e desafia as juntas da velha escada de pedra. Ao longe, os trilhos quase escondidos pelas papoilas e o rosmaninho e os estradões estreitados pelas bermas silvestres que cresceram. Regresso pelo caminho das amoreiras e verifico que o musgo invadiu algumas das juntas da cobertura da piscina e que o lago está cheio de verdete.
É preciso juntar folhas em montes, recolhê-las para um carro-de-mão e sobrepor-lhes um menino, para que não voem as folhas e o petiz se delicie com a viagem encosta abaixo; é preciso apanhar a salsa desordeira e oferecê-la à D. Berta, que nos agradecerá em pastéis de bacalhau; é preciso dar passeios pelos campos para avivar caminhos e desgastar as unhas da Milú que anda armada em sedentária; é preciso trepar às árvores como os macacos para apanhar as nêsperas, as cerejas e as amoras e comê-las quentes e ficar com nódoas na roupa, nas mãos, na cara, na língua; é preciso aprender -mesmo- a andar de bicicleta, para não cair nos passeios até à ribeira; é preciso lavar a cobertura com jatos de pressão que nos molham sem mergulharmos; é preciso renovar a água do lago e ir ao poço pescar novos peixes que os gatos da redondeza novamente se encarregarão de comer...
Está tudo a precisar das férias grandes!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Do fim de semana

"Esqueçamos, darling, tudo o que não se passou entre nós".
(A Cantora Careca, Eugène Ionesco)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Bem sei que me repito

BENFICA!!!

Dedicatória

A todos os que, em reuniões de trabalho, fazem perder tempo com asneiras e, apercebendo-se do faux pas, oferecem um "pardon my french" servido em cara de parvo: "parle à mon cul, ma tête est malade!".

quinta-feira, 19 de maio de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Uma imprecisa coisa feliz

Um certo brilho de corista, a minha música velha, os seus versos novos, as nossas diatribes, estilhaços de inocência, palavras despidas de alquimias, um sorriso aberto, água fria com gás, café amargo bem quente e chá branco das cinco da madrugada, um trago de ti, uma praça onde as mulheres se desenham com S e os homens se escrevem com H, vendavais de malmequeres desfolhados, reticências de finais felizes, embalos de orquestras de sopros, histórias por contar, sossegos que deram trabalho, paragens sem nome em paisagens fora do mapa, fotografias de sons, diástoles de silêncio, momentos de nada, abraços de finalmente.

*Fernando Pessoa

Estava a ver estava

-"Vai levar este? É muito bom. Já conhece? Deixe-me só mostrar-lhe uma coisa!" - enquanto atende a senhora à minha frente, muito sorridente - "Deixe-me só mostrar-lhe!" - enquanto coloca o produto nas suas mãos - "Deixe só mostrar!" - enquanto esfrega o produto nas suas mãos e a senhora à minha frente me lança um olhar de súplica e dá um passo atrás - "Deixe-me só..." - enquanto exibe um sorriso de orelha a orelha e umas mãos besuntadas e eu próprio dou um passo atrás - "Deixe-me só fazer isto!" e... chapa com as mãos na cara "Está a ver? Estão a ver? Olhe bem para mim! Até o senhor vê que eu já estou a ganhar maçãs de rosto".

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal...*

Durante mais de uma década, penteei-lhe os cabelos. Mesmo quando deixou de precisar, continuou a trazer-me a escova e os olhos imensos. Havia um ritual de ternura naquele passo mudo da manhã. Ela escolhia o gancho ou a bandolete ou até o elástico e trazia-mos com a escova. Eu fazia o melhor que podia, até que passei a fazê-lo bastante bem. Ela, sobre o banco/degrau, frente ao espelho, mirava-se. A tarefa terminava com o sorriso doce da aprovação. Veio esta semana e foi a primeira...
Não me esqueci de nada, princesa.

*Eugénio de Andrade

Às escondidas

Desapareceu, há mais de 48 horas, sem deixar rasto. Tinha ameaçado fazê-lo através de parábolas que ninguém levou a sério. Presume-se que tenha amuado com o delay em pentear-se, que a levou a perder o intervalo. Na última vez em que foi vista, envergava um vestido branco com gola branca e encarnada e um casaco azul. Pede-se a pedido de muitas famílias, a quem a encontrar, o favor de lhe dizer que já há sol a assomar e novas gargalhadas por estrear. Lavram-se louvores em ata a favor de quem a conseguir resgatar.
  

(A máquina não tinha rolo.)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Faz-me gostar de poesia

Escreve-me um poema. Escreve um poema para mim. Não quero que a tua poesia me faça chorar. Por isso, não me escrevas um poema triste. Quero um poema que não seja muito longo, para poder decorá-lo e tê-lo comigo sempre que me apetecer. Quero um poema que não seja seja muito curto, para não ter de ouvir "só isso" daqueles com quem me apetecer partilhá-lo. Tem de ser um poema teu, para eu ouvir a tua voz nas palavras e bastar lembrá-las para te dar a mão. Escreve-me um poema para eu me sentir nele.

Escrevi-te um poema...

Post em tempo de seca

Aborrecem-me os que se julgam autossuficientes. Aborrecem-me os monológicos. Aborrecem-me os que prometem fúrias e desatinos e não sabem ser homéricos.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Um obstinado rigor

Contribuindo para o debate acerca do ensino em Portugal, Outro Ente sugere a inclusão das seguintes matérias no currículo básico:
  • História de memórias de gratidão;
  • Literatura em tons de azul; 
  • Matemática de sentimentos diferentes e iguais;
  • Música para a tocar;
  • Geografia de margens de oásis imaginados em desertos reais;
  • Ciência das artes infinitas;
  • Desporto sem emblemas nem teias;
  • Línguas clandestinas e cúmplices.
(Lista em atualização.)

Não sei o que diria Brazelton

Era um daqueles momentos de descanso dos guerreiros, em que o mais novo se entretinha com o camião das plasticinas, a mais velha com o i-pad e o pai com os jornais. Demasiado cedo, porém, o silêncio foi interrompido por risinhos cúmplices que antecederam a invasão da sala pelos irmãos Carreira. "Gostas, papá, gostas?" provocava ela, enquanto ele, com trejeitos de ninja, entoava "ooo tarnoufóuat". Quanto mais sisudo e enfadado se mostrava o pai, mais deliravam os miúdos, unidos naquela profanação youtubeana. Sem nunca deixarem terminar as "músicas", numa espécie de mostra de feira, saltavam de uma para outra, desfilando um pintinho, olhástôra e demais que, felizmente, já não recordo, acompanhadas de gargalhadas deliciadas "esta é mesmo boa, não é papá? Gostas? E esta? Ainda é melhor, não é papá? Gostas desta?". 
Então, o pai pegou no tablet e "é o bicho é o bicho"... 
(A estupefacção deles valeu a pena!)    

domingo, 8 de maio de 2016

O estranho caso dos personagens que desapareciam da história

A porta abriu-se para deixar entrar um homem de semblante grave, com o porte de quem sobrevivera a perigos inquietantes e atravessara países longínquos, que parecia conservar no fundo dos olhos verdes o tempo e a estranheza das paisagens que conhecera. Do charuto que lhe fumegava na mão direita, desprendia-se uma coluna de fumo espesso que serpenteava pelas paredes branquíssimas, parecendo agitá-las, torcendo-as em movimentos de claridade. O homem avançou enérgico, mudo, de olhos postos no telefone, em contemplação da voz feminina, feiticeira, incessante, cativante na clareza vazia de lendas e de inquietações e de reminiscências, como o som da decomposição das almas. As palavras monótonas, intermitentes, desordenadas, desvairadas como se fugissem apavoradas, iam enchendo o espaço, obrigando as paredes a fechar-se sobre si, como vagas desiguais de um oceano, erguidas como ondas de rebentação cada vez maiores e mais furiosas na clausura. Entretanto, o eco desmesuradamente ampliado entrechocava "tênhamos" e "fáçamos" em incessante rumor. E, o homem perdeu a vontade de ter ou fazer sem plurais em átonas sonantes.
Então, sem gemidos de sofrimento nem murmúrios lamentosos, crispado numa espécie de paroxismo furioso, o homem desapareceu desta história por onde tinha entrado. Na sala ficou só a voz, falando ininterruptamente pelo telefone.

sábado, 7 de maio de 2016

Des maîtres a penser

Segundo as leis da aerodinâmica, um zangão não voa. No entanto, os zangões passam a vida a voar em busca de rainhas para fecundar. Há quem diga que os zangões só voam porque não sabem que não podem voar...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Dia da espiga

Durante muitos anos, a 5ª feira da Ascensão e o dia de bolinhos foram os meus feriados preferidos. Era sabido que nos juntaríamos todos na Herdade. Para cima de uma dezena de primos, várias tias e os avós. Os pais chegariam só para o fim de semana, o que nos dava uma sensação de liberdade vertiginosa. Bem cedo, íamos para a zona das pinheiras mansas e percorríamos os caminhos que, chegado o Verão, calcorrearíamos à cata de pinhões. Desta feita, porém, procurávamos tulipas "galo, galinha ou pinto" e ervas ásperas que atirávamos às roupas de uns e de outros, em punhados, gritando "quantos namorados tens". O avô acompanhava estas expedições e, com ele, aprendemos todos a cantar "minhas botas velhas, cardadas". Havia, também, a das velhas desdentadas e carecas, que nos fazia rir sempre que chegávamos à parte do velho pançudo que soprava por um canudo. Colecionávamos chapéus de cobra, malmequeres desfolhados, braçadas de rosmaninho e de alfazema e, claro, espigas. Íamos colhendo sem grande critério e só não apanhávamos exemplares das que o avô avisava "essas não". No regresso, era cumprido o ritual de colocarmos tudo num monte, sentando-nos em seu redor, enquanto cada um ia compondo o ramo da espiga que, depois de preso com o caule de uma erva, ofereceria à sua mãe. O avô fazia sempre o ramo da casa. Lembro-me de que, à chegada, nos esperava limonada adoçada com açúcar louro, refresco de vinagre, cevada fraquinha e broas acabadas de cozer, regadas com azeite e polvilhadas de açúcar. Então, o avô entregava o seu ramo à avó, que o pendurava na parede da alpendrada.
... Talvez este ainda seja um daqueles anos... com rituais de ice tea.   

quarta-feira, 4 de maio de 2016

De Demócrito a Sileno, o riso e a moral. (com um título destes, o post só pode ser uma anedota)

Um dia, o pai chamou os seus três filhos e manifestou-lhes a sua última vontade: "Estou velho e a minha morte aproxima-se. Desejo que, no dia do meu funeral, 15.000,00€ me acompanhem dentro do caixão quando eu descer à terra."
Algum tempo depois, o pai morre e os três filhos acorrem ao funeral.
Estava o caixão prestes a ser fechado, quando o filho médico se aproximou, contou 5.000,00€ enquanto pensava no relógio  que ainda ontem lhe luzira o olho, e depositou as notas dentro do caixão, dizendo: "Cumpra-se a tua vontade".
De seguida, o filho engenheiro aproximou-se, contou 5.000,00€ enquanto pensava na viagem que poderia ter feito com aquele dinheiro, e depositou as notas dentro do caixão, dizendo: "Faça-se como pediste".
Por fim, o filho advogado aproximou-se, preencheu um cheque de 15.000,00€ e depositou-o dentro do caixão enquanto retirava de lá os dois maços de notas, dizendo: "Assim seja. Respeite-se a tua última vontade".


Alacridade

Nem todos os caminhos que percorro são estradas de estórias.

Ontem, ao final do dia, conduzia no caminho de regresso e, finalmente, pensei em escrever. Foi catártico. Muito poético. Ary dos Santos com Pessoa e Paulo de Carvalho. Os insectos a bater no vidro, interromperam-me antes da materialização. Tau-tau-tau. A princípio ainda pensei que fosse areia, tal a frequência, mas deixaram no para-brisas a prova da sua essência. Para abafar aquela cadência de morte, aumentei o som do desalento à espera da construção. Lembrei-me daquela outra vez, lá longe. Engraçado! Costumo rir quando as coisas correm menos bem. Naquela vez, porém, não me ri. Tive medo. Desta vez, também tenho medo. Medo de voltar a ter tanto medo assim.