quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Drs e cães

O jovem dr. empregou-se na capital e por lá arranjou poiso. Coisa acatitada, que lhe não permitia albergar o seu canídeo. 
Uns dias depois, acercando-se do Ti Joaquim - homem bonacheirão da terra - o sr. Fausto pediu-lhe que acolhesse o cão de seu filho, até que este tivesse condições para o levar. Por pouco tempo e com pouca maçada, evidentemente, que o dr. haveria de lhe deixar ração suficiente e de o recompensar pelo incómodo. Seria um favor de amigo. Só não ficava com o cãozito ele próprio, porque a mulher, coitada, sofria de alergias.
No fim de semana seguinte, chegou o dr., que deixou o cão e levou a trela. 
O Ti Joaquim limpou o despovoado galinheiro e nele instalou o cão que alimentava com os restos de comida que trazia do restaurante de borda de estrada, onde servia às mesas. O dr. vinha passear o cão todos sábados à tarde, trazendo sempre consigo - apenas e só - a trela.
Sucedeu que o cão aprendeu a saltar a cerca que delimitava o espaço outrora ocupado pelas galinhas, a roer os vasos das flores, a esburacar a horta, a roubar as uvas e, finalmente, a saltar os muros do quintal para a estrada. O dr. só conseguia vir de 15 em 15 dias.
O Ti Joaquim prendeu, então, uma trela à coleira do cão. Suficientemente grande para lhe permitir passear-se pela capoeira e suficientemente pequena que para que não pudesse saltar a cerca.
Chegou o dr. com a trela. Foi-se o dr. com a trela. Regressou o dr., pouco depois, sem trela, mas com a guarda. Foi-se o dr., com a guarda, mas sem o cão. 
Dias depois, o Ti Joaquim foi constituído arguido em processo crime, acusado de maus tratos a animais. O cão


11 comentários:

  1. Se fosse no tempo em que os animais falavam...

    Seja bem-regressado, Outro Ente.

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    1. Outro Ente, desculpe, agora fiquei curiosa com a sua história...
      - O Ti Joaquim, o bonacheirão, que agiu de boa fé, fez o melhor que pôde e a mais não era obrigado, o mais certo é ter que pagar por crime que não cometeu;
      - O sr. Fausto lá continua...ele e sua senhora cheia de alergias;
      - O jovem dr. na sua vidinha, lá para a capital, também está bem e recomenda-se.
      Conclusão, quem perde é sempre o elo mais fraco.
      E o cão?
      Vitória, Vitória, acabou-se a história.

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    2. Então, Té, o cão fugiu.
      Amanhã haverá outra por esta hora. Ou não.

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    3. Não tivesse - de facto - ocorrido em Lanzarote [ilha vulcânica de extrema beleza] e bem podia, Outro Ente, estar a relatar o início de vida de Camões;

      “Entra, chegaste à tua casa”

      https://www.josesaramago.org/morreu-camoes-o-cao-que-inspirou-saramago/

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  2. Doutores da mula russa, é o que é...Ah, povo que lavas no rio e talhas com teu machado as tábuas do meu caixão...
    Até desdenham a tua difícil vida e brincam com a tua boa-intenção.

    Viva, Outro Ente.

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    1. É sempre o mesmo fado.
      Boa tarde Maria Antonieta.

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  3. Muito haveria para dizer sobre essa bizarra incriminação...

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    1. E haverá, que o processo ainda agora está em fase de instrução.
      Bom dia,
      Outro Ente

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