Um blogue delico-cool, onde o tal e o outro dão graças por não saberem que não sabem o que não sabem.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Desintoxicar com leite
Não sei se o centro de Portugal é o seu coração. Sei que está ferido o centro de Portugal. Sei que está ferido o meu coração. E dói-me - provinciano me confesso - com a devastação que as desgraças longínquas não igualam.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Isto ainda vai acabar bem
Importa-me pouco se a viagem acaba ou não, se recomeça ou se se repete. Haverá sempre mais para ver, e isso basta-me. Sou dos que não quer viver muito, apenas o suficiente. Dizerem-me que a morte é certa é como eu dizer à minha filha que Hogwarts não existe. Só pessoas que exclamam "olha, um urso polar albino" quando vêem um urso preto, dizem coisas daquelas. É gente que nem sonha que até a música se solta de si em busca do sol.
Tenho a certeza de que, quando chegar a minha hora, saberei ir à minha vida!
quinta-feira, 15 de junho de 2017
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Toda a gente sabe que nos blogs não há amigos*
Nos blogs, limitamo-nos a inventar de espanto palavras de maresia, sem cobrar das horas gastas. Nos blogs, limito-me a mentir com (quase) todos os segundos que o tempo tem.
No blog, transgrido em confissões que nunca fiz e persisto no tempo que me falta. No blog, chego a dançar um tango intenso, no convés de um barco que não navego.
Com o blog, partilho palavras comuns e insuspeitas, conheço escritas admiráveis e arrepio-me com novos tons.
Pelos blogs, antecipo autores distintos e absolutos da catarse que vale a pena. Pelos blogs dos meus, chego a antecipar a entrada do dia num novo post.
Os blogs apreciam a distância indelével da corporalidade e mantêm a presença viva do pensamento.
Neste blog, perdi o conto às tardes convividas e às histórias instintivamente tecladas. Senti a cumplicidade do outro lado da distância. Recolhi o que me sobra em pensamentos. Abriguei-me da nostalgia do que já não é e do que me engano.
Este blog dá-me conta de outros cantos, sustenta-se em motes diferentes, tutela estradas, ignora vassalagens prestimosas, aplaude sensibilidades benignas.
Houvesse alma, como há talento, e talvez - nisto dos blogs - existíssemos amigos.
Semântica ao jantar
Ela: - "Tenho mesmo de comer a maçã toda? Sabe a azedo..."
Ele: - "Vá lá, toda não... Sabe mesmo a azeite!"
Ele: - "Vá lá, toda não... Sabe mesmo a azeite!"
terça-feira, 13 de junho de 2017
Foi ontem ainda agora
Ontem, não saltou do carro assim que lhe abri a porta. Ontem, não tentou lamber-me as mãos com o focinho-sempre-húmido quando lhe falei. Ontem, peguei-lhe ao colo e pesou-me como nunca. Ainda agora, vivíamos jornadas de léguas e lebres, de entendimentos e silêncios, de festas e quietude. Eu também não voltei a caçar.
Ontem, pediram-me mais do que patrocínios. Culpo a nostalgia dos tempos de aeromodelismo. Deixei-me envolver pelos doze que me calharam e acolhi-os com o temor de não ser. Foi um ano de sentimento do pouco tempo.
Ontem, o meu filho deu uma tesourada nas pestanas e a minha filha passou a fechar a porta do quarto. Ainda agora, precisavam que lhes cantasse a música do ursinho. Ah, esta santa saudade, reverenciada pela centelha eterna do sonho que ouso acreditar infinito.
Ontem, problemas de circunstância não pareciam irrisórios e a neblina das horas cinzentas desaparecia sem deixar marcas. Ainda agora, não acredito grande coisa no que - dizem - acabou por dar certo.
Ontem, não adiei no tempo o teu sorriso, mesmo sabendo que a alegria é breve e as manhãs submersas.
Ontem, encostaste-te a mim e fechaste os olhos, como pertence a uma mulher que quer ser beijada.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Porque o amor não tem chulé
Psiquê, imortalizada por Eros; Luísa, a quem Basílio aportou uma existência superiormente interessante; Alcíone, eterna em Ceix; Dulcineia, que Dom Quixote tornou norte dos caminhos e estrela da ventura; Andrómeda, salva por Perseu; Susana e Fígaro, inesquecíveis a uma só voz; Júlia, resgatada por Winston de 1984; Jacinto, celebrado pelo canto de Apolo; Ares e Afrodite, unos em Harmonia; Eurícide, por quem Orfeu chorou lágrimas de ferro; Papageno e sua Papagena; Ártemis, acompanhada por Órion; Filémon e Baucis, que permanecem unidos pelos troncos; Aurora, beijada por Phillip; Branca de Neve, ressuscitada pelo seu príncipe encantado.
Em cima: O beijo, de Rodin, onde se comprova, como se a vida não nos ensinasse quanto baste, que o amor até lava os pés.
(À consideração da espirituosa Cuca, a Pirata.)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
A imanência de Éris
Se pudesse bastar-me com "a mais bela" da festa de Peleu e Tétis, como Páris; se a minha dúvida não fosse inabalável e persistente; se a demanda fosse menos exótica e genuína; se não me perdesse em excessos de vendaval e em volubilidades da vida; se acreditasse em absolutos inviáveis, em perplexidades prolixas, em distâncias da certeza; se calasse as desconfianças extravagantes, até de mim...
Entretanto, basto-me com pão com queijo; amazonas deslumbrantes, porvires de graça; temperos do frio; terras férteis semeadas, como dantes; noites imensas; génios sem ansiedades; memórias diletantes e coleções de variados amores.
Para sempre
A necessidade incessante de te buscar que me pulsa nas veias e alenta será, talvez, a obra maior do sentir perenidade.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Pim!
Há dias, acedi a partilhar a conta do Spotify com a minha filha. Na altura, pareceu-me uma solução de compromisso vencedora, que satisfazia os interesses de ambas as partes sem beliscar as respetivas convicções. Uma espécie de win-win situation que a deixou contente e me deixou descansado. Tudo corria bem...
Acaba de me aparecer uma notificação "just for you" com a sugestão Taylor Swift.
Como diria a minha filha: morri.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Hinos e hossanas
Neste blog, continuará a conversar-se sobre o sopro de um beijo, sobre a música, sobre os golos e os milagres e as damas de allure et charme. Sobre os sonhos fabulosos e o gosto de os viver, a fantasia e o labor, a poesia e o improviso, a caricatura e a evidência, a boa disposição e os ovos escalfados em molho de tomate, cardápios de sedução para paradigmas possíveis. Sobre a mulher, a vida, as chuvas, os anos. Sobre os desejos inconfessados, as fragilidades da vida, as paisagens da existência. E sobre a criação de frísios, os heróis e seus galopes, o correr da pluma, a sucessão das datas, as diferenças, as desistências. Sobre os valores que perduram. Sobre a inalienável dignidade. Sobre a ironia, a ternura e a incessante busca de azimutes. Sobre os cometimentos e os merecimentos e o humanismo e a comunhão no urbanismo. Sobre o tinto velho com bom queijo. Sobre o apego bacoco a números de telemóvel que não atendem mais...
Continuamo-nos
Um jeito de silêncio, bailado de mar e terra. Fins de tarde passeados na alameda à sombra das árvores altas. O badalar quinhentista das horas in illo tempore. O instante breve e fugaz em que o sonho persiste e me integra, em que te sentas a meu lado e te inventas e me invades. Coisas de nada. Utopia. Deslumbramentos. Tangos extravagantes. Naufrágios ao nível de um Conde Andeiro. Basófias sem censura...
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Autoanálise
Apercebes-te de que passaste a preferir as V7... e inquietas-te sobre a ditadura do proletariado.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Eu escrevo na água todos os dias
Não é que não me apeteça escrever. Pelo contrário, apetece-me dizer: Rocambole, Rasputin, Robin dos Bosques. Reinos da utopia, castelos da Baviera, velhas pedras do passado, ameias, Bacantes e tochas ardentes. Cantos gregorianos, cenários de luxúria, Vernissages, baralhos dos dias, Casanova. Roissy, Soho, tresloucado, Ilha dos Amores, Central Station.
Quero falar-te de coisas de nada. Não me importa que as nossas vidas não venham na história. Só exijo que acredites nos sonhos que não morrem neste mundo.
"Olho para o papel branco (afinal um tudo-nada pardacento) sem a angústia de que falava Gauguin (ou será Van Gogh?) ao ver-se frente da tela, mas com apreensão, apesar de tudo, Que vou eu escrever – eu, a quem nada neste mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que neste momento ainda não redigi..." Augusto Abelaira, Bolor
* "Escrever na água" era o nome da crónica de Augusto Abelaira.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
A blasfémia de Martim
Ontem, durante o jantar, com ar sério e voz grave, o meu filho contou: - Hoje, o Martim foi muito mal-educado e disse uma coisa que tu nunca admitirias.
Habituado às diatribes do Martim, useiro e vezeiro em não fazer os TPC e em jogar futebol com copos de iogurte, perguntei: - Que fez, desta vez, o Martim?
Ele, arregalando os olhos, respondeu-me: - O Martim disse que o Pai Natal não existe.
Apanhado de surpresa, indeciso entre arruinar-lhe a fantasia ou deixá-lo ser gozado, limitei-me a: - E então?
- Eu disse-lhe que o Pai Natal é um símbolo.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Liber Chronicarum
Era uma lembrança desse tempo de delícia, em que a palavra vinha direita do coração e a manhã nos envolvia com a seda e o sorriso das ninfas.
Era um tempo perdido no tempo.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Marketing
Ainda o jantar ia a meio, quando se ouviu: "depois, podemos dar um passeio?". Traduzi, para os demais convivas, que o intuito dos meus petizes era caçar pokémons e prometi-lhes que, mais logo, iria caminhar com eles.
Entretanto, apercebi-me de que os petizes começaram a trocar animados sussurros e risinhos com Edite.
À hora da despedida, sou informado de que Edite "também vai caçar pokémons connosco". A filha tratara de lhe instalar o jogo no telemóvel e até já tinham escolhido uma menina com um "nome fixe" (provavelmente, porque este pai escolhe nomes como lçkjlkh ou kjggjhg).
Enfim, naquele serão, ele caçou com o meu telemóvel e ela com o de Edite. Não houve insatisfações com o número de bolas gastas. Ninguém se queixou das vezes em que os alvos fugiram. O pai não teve de controlar o tempo para ir alternando "agora é a vez do teu irmão" com "agora dá o telemóvel à mana".
Desde então, todos os dias, invariável e insistentemente, massacram-me com a ladainha: "podes convidar a Edite?".
...cheguei a ponderar comprar mais um telemóvel.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Quando os homens choram
Na última reunião de projeto, o orientador pegou numa garrafa de Barca Velha e ofereceu-a ao Pablo, estudante de Erasmus empenhado e promissor.
Para o jantar de despedida, Pablo convidou o orientador e um punhado de colegas seus, prometendo cozinhar um borrego divino.
Os convidados, sentados à mesa, vendo Pablo assomar à porta com um fumegante tabuleiro, fizeram coro para que se abrisse a Barca Velha.
Então, Pablo arregalou os olhos, baixou-os e fixou-os no fumegante tabuleiro...
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Caramba mulher
Cláudia Filipa pertence à classe de comentadores ipsotalqualmente enigmáticos, cujos comentários são bem mais do que o sopro da solidão em velas de frivolidade.
Desapareceu destas festas de amigos, vai para tempo indistinto. Foi avistada, pela última vez, em conversa de bom gosto apurada no lume da paciência e temperada com argúcias intelectuais.
Faz-me falta, para cavalgar travessuras de epicuros menos maus e para pugnar por discursos quase conseguidos em novelas ainda por escrever.
Procuro-te nos escombros das palavras.
Ainda está tudo por dizer...terça-feira, 6 de setembro de 2016
Se este blog tivesse linha editorial
"Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu."
Margarida Ferra, Sorte de principiante
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Relógio do tempo
A imensidão desta terra chã, confluência onde se move e abraça a minha história; a tradição do velho solar; a carícia do melhor vento debaixo da alpendrada; a beleza em variedades de sonho; a mística das velhas paisagens; a inocente e expressiva fantasia do espaço; a aristocracia das gentes; os ares telúricos; os espelhos que mostram o lado de cá; os livros que revelam o que mora escondido nas palavras; os carreiros sem destino; os muros sem fronteiras; as madrugadas encontradas a poente; os amanhãs sonhados nos alvores do fim da tarde; o torpor induzido pelo canto das cigarras; os grilos que se deixam apanhar em caixas de fósforos com folha de alface; o esquecimento do que nunca soube; as fotografias que me curam de mim.
Por mais anos que passem, continuo a olhar a herdade com olhos de menino atónito.
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