Nos blogs, limitamo-nos a inventar de espanto palavras de maresia, sem cobrar das horas gastas. Nos blogs, limito-me a mentir com (quase) todos os segundos que o tempo tem.
No blog, transgrido em confissões que nunca fiz e persisto no tempo que me falta. No blog, chego a dançar um tango intenso, no convés de um barco que não navego.
Com o blog, partilho palavras comuns e insuspeitas, conheço escritas admiráveis e arrepio-me com novos tons.
Pelos blogs, antecipo autores distintos e absolutos da catarse que vale a pena. Pelos blogs dos meus, chego a antecipar a entrada do dia num novo post.
Os blogs apreciam a distância indelével da corporalidade e mantêm a presença viva do pensamento.
Neste blog, perdi o conto às tardes convividas e às histórias instintivamente tecladas. Senti a cumplicidade do outro lado da distância. Recolhi o que me sobra em pensamentos. Abriguei-me da nostalgia do que já não é e do que me engano.
Este blog dá-me conta de outros cantos, sustenta-se em motes diferentes, tutela estradas, ignora vassalagens prestimosas, aplaude sensibilidades benignas.
Houvesse alma, como há talento, e talvez - nisto dos blogs - existíssemos amigos.