sábado, 30 de maio de 2015

Encontros que dizem adeus


 

O destino passa
No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão
e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver
o destino cumpre-se e passa
Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam
como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam
na espuma que esmago contra a areia muito fina
na mulher que me acompanha e comigo se perde na noite
nos soluços de luz verde que um farol nos envia
o destino detém-se e passa
 
(Alexandre O'Neill)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Catilinárias

Todos os leitores deste blogue, pessoas eruditas e poliglotas, conhecem bem o discurso de Cícero a Catilina, em que aquele se queixava "Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra" (até quando abusarão as mulheres da nossa paciência). Os meus leitores também sabem que é destas catilinárias que vêm as atuais calinadas.
Vem isto a propósito da nova rubrica neste blogue, que é também a primeira: calinadas em versão literata dedicadas a todas as que abusam da paciência.
Sem mais demoras:


Não há reuniões com o Ente ao almoço. A recusa não tem em conta a pessoa do proponente. Não se sintam pessoalmente preteridas.
Todas as reuniões com o Ente ao jantar são pessoais. Se declinar o vosso convite não insistam. Finjam que não se sentem pessoalmente preteridas.
(Prefiro as que me deixam convidar. Nem sempre.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Campeonatos e plebiscitos - futuro ou condicional

O Reino Unido já tem a sua pergunta. Uma confusão na destrinça. Ser ou permanecer. A Rússia talvez já não tenha o campeonato do mundo em 2018. Uma neutralidade suíça. A dificuldade em ter e manter. A hegemonia da língua inglesa ou the all american. Sobre o leite derramado, nem cães nem gatos. A riqueza das vacas leiteiras.  La belle époque. Bucólicas. Ma Belle. Nada de bulir. Que beleza de calor. Um rebuliço de russas e roliças numa aliteração forçada.


Au clair de la lune mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume pour écrire un mot
Je ne sais pas écrire
Prête-moi des mots

A aniquilação da euforia

Sem querer repetir os termos da polémica quanto ao desenvolvimento intelectual e seu reflexo na consciência individual, constato que releio com o gosto de ler, impondo-se-me a mesma exigência totalitária de outrora.
Terminado um poema indiano, entre baforadas de H. Upmann e inspirações de terra molhada, atenuo a importância de Atman e encurto o Om para me indultar - de novo - no substrato humano. Magistral!
"Ela chamou-o com o olhar (...) Kamala beijou-o longamente e Siddhartha compreendeu, com espanto, o quanto ela lhe ensinava, como era sábia, como o dominava, o repelia e o atraía."
Hoje não me apetece o silencioso mendigar da meditação. Afinal, "nada existe que seja o Nirvana, apenas existe a palavra Nirvana".
Falemos de outras coisas...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Anónimos

Tessituras poéticas de assinaturas incógnitas. Ecos de vozes singulares.


(Shirin Neshat)

Só os professores de blogues é que podem

O arauto vaticina o incumprimento generalizado pela burguesia. O povo unido não só não será vencido como não será convencido. Nem ás nem asno, o povo ainda vê o que se quer visto. As cortes infames botam faladura para não estarem caladas e decretam para se ocuparem.
O arauto levanta o pano e revela a cena similar desse "laisser faire, laisser passer" característica dos trovadores. Em boa verdade, parece que aqui o arauto se estica um bocadinho assim*, empolando sem empolgar.
Mas o arauto é magnânimo e acha bem que existam regras, contanto que não sejam cumpridas. Acredita e quer acreditar, numa oração de fé sem precedentes, nos leitores ma non troppo.
O sol quando nasce é para todos. A lei é cega. Boys will be boys. Tudo bons rapazitos.



*Post não patrocinado pelos suissinhos.




 

 
 

terça-feira, 26 de maio de 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Ente dá o pontapé de saída no comentário ao fato

O fato é preto. Mesmo quando não é smoking. Grilos, este ano, nem vê-los. As calças são vestidas e não descaídas, nem tão curtas que sirvam para atravessar cheias nem tão compridas que arrastem, devendo o vinco de trás tocar no tacão e o da frente ser 1cm mais curto, para não enfolar sobre o pé.  (Que deu a alguns para não cumprirem o comprimento?) Não deixes que te enfaixem como a um bandarilheiro, sob pena de pareceres o rabeador. (De vermelho então...) A camisa branca estará engomada e não acabada de sair da caixa, com o punho a cair entre o pulso e o início do polegar, aparecendo 1cm sob o casaco. (Guardai a preta para o lux. Melhor ainda, usai-a sempre branca.) As meias são pretas (cor de vinho tinto eram os sapatos da Prada, não as meias, e mesmo esses ficavam escondidos pela batina.) Os sapatos são pretos, de atacadores e finos, sem autocolantes na sola. Nem Fred Astaire, nem Crocodilo Dundee. (Aquilo parecia pele de cobra. Um susto.) O laço é um papillon. Usa-o como tal e convence-te de que fica menos ridículo do que os atilhos de quem traz a corda ao pescoço. Um relógio e botões de punho. (Aquelas flores de cordel que vêm com as camisas não se qualificam.)
Se for necessário um jogador de bola mostrar como se faz, não penses que chegou o fim da linha, antes reconhece a mola real.
No dia em que esqueceres estas regras e te vires numa figura saloia ao lado de uma mulher aperaltada, diz-lhe "the joke is on you". Também é. E vai-te embora, que para engalanados bastam os Santos. 

Eu sou pela identidade e pela distinção

As redes sociais são a salvação da democracia e o palco do reto exercício dos direitos cívicos. Ámen. Glória ao facebook onde as rosas nunca murcham e as frases inspiradoras nunca faltam. Louvadas as sãs amizades, ali nascidas, entre boa gente com quem se pode contar. Exultemos com a força dos likes que move marés de ir e voltar. Bendigamos as mulheres que ali são livres de pedir amizade ou algo mais.

Este blog é o que é e este Ente não adere a redes ou campanhas que lhe retirem identidade.


(Queixam-se que eu não respondo aos emails...
Não se amofinem com a potencialidade para multiplicar números. Revisitemos Lisboa.)

domingo, 24 de maio de 2015

Resumo ou previsão numa história que se repete

O enfezado tem piada com aquele ar de gigolo, que se lhe colou desde os gémeos. Não sei se é dos sapatos se da barbearia. Já todos percebemos que uma maria capaz é capaz de tudo. As outras  marias também. Mesmo as que vão com as outras. Seria preciso sair debaixo da árvore para ver a floresta. Não tomar a floresta pela árvore nem a árvore pela floresta. O todo e a parte fundem-se mas não se confundem. Confundidos andam muitos. Cegos estaremos todos.

Our Inventions

Nunca seremos só amigos

Existe em mim uma superlativa limitação para abarcar a multiplicidade das relações humanas.
Navego entre trópicos com um enlevo sem bússola e uma inocência sem norte.
Hesito perante a entusiástica disponibilidade que anestesiantemente nos fixa continuação.
Obstinado neste meu ceticismo mantenho a incondicional ternura.
Porém, sei inequivocamente que não sendo amantes, seremos estranhos.
Desconheço esse conceito de desvalor inventado pelo sexo feminino que, perante um termo que não desejou, insiste numa "só amizade", como uma amizade menor, como se tal desvio fosse instituível.
A recordação no simbolismo de um horizonte passado não se confunde com qualquer tipo de futuro.
Jamais servirei para quem, subliminar ou despudoradamente, reduz a amizade numa abusiva comparação de termos exclusivos que nunca vivenciou.
Obsidiante é Dante: é vasto o mar a tão pequena barca... 

Obsessões

A minúcia propicia a escritura.

sábado, 23 de maio de 2015

Chegou a hora


Amizade também é

Comprometer um fim de semana luminoso e apetecido para rever a tese de um amigo...
Nunca seremos estranhos, apesar das memórias da nossa amizade serem eternamente sagradas. Nietzsche não tinha ciência nenhuma.
... valem-me o ar puro e a esperança de, ainda hoje, mergulhar nas águas que acenam sempre que me acerco da sacada.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Vamos antes jogar Tetris

Fixava indefinidamente o jardim de onde o esperava. Perscrutava o caminho de pedra que serpenteava por entre as ervas. Numa esperança sem resignação, caminhava preso ao desejo de o encontrar por detrás das folhagens. Pum! Matei-te! Esgares. Revirar de olhos. Desequilíbrio forçado. Pam! Cai como cerimónia fúnebre. Que fazes aí espojado? Morro! Levanta-te idiota! Deixa-me morrer em paz. Não podes morrer, que a mãe não nos deixa brincar às guerras. Vamos antes brincar a outra coisa.



Morla, a tartaruga

Neste castelo de pedra, sem tapetes nem pêlos, impera o vagar e o camarão seco.


(Um dia postarei a fotografia de uma melga.)
 
 
"- Ouve lá - gorgolejou Morla, - nós somos velhas, pequeno, velhas demais. Já vivemos bastante. Já vimos muito. Para quem sabe tanto como nós, nada é importante. Tudo se repete eternamente, dia e noite, Verão e Inverno; o mundo está vazio e não tem significado. Tudo se move em círculos. O que aparece tem de desaparecer, o que nasce tem de morrer. Tudo passa, o bem e o mal, o estúpido e o inteligente, o belo e o feio. Tudo é vazio. Nada é real. Nada é importante." (História interminável)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Post dedicado a todas as minhas meninas dos blogs

As minhas meninas dos blogs são todas as que eu leio e comento e as que me lêem e sei quem são. Isto não tem nada de paternalista, notem. Poderá soar arrogante... Tampis! É assim que penso nelas: as minhas meninas dos blogues. As minhas meninas dos blogs são divertidas e, no fundo, sabem que isto são só blogs. As minhas queridas meninas dos blogs, não esquecem que isto são só blogs. Ou blogues. Com toda esta confusão acho que fiquei baralhado. Parece que há mesmo quem se leve demasiado a sério e esqueça que isto são só blogs. Tampis! As minhas meninas dos blogs não se deixam enganar. Isto são mesmo só blogs. Hoje, para todas as minhas meninas dos blogues, ode triunfal:
"Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais..."

PS ou Ante Scriptum - Um Post Scriptum

E viu Deus que era boa a luz. E vejo eu que tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. E vemos nós uma declaração de intenções que não confundimos com carta de recomendações. E vêem eles questões fraturantes que confundem com desafiantes. E vedes vós novas oportunidades, sentidos únicos ou vias sem saída. E tu tonho, que vês? Cerram-se-te os olhos quando ris. E Deus separou a luz das trevas. E nós separamos o lixo. Às vezes.


Arthur Tress. Flood Dream.

Se delirar é verbo qual o modo de delírio

O meu sonho é intersubjectivamente interveniente. Quando preterido desaparece. É coordenada efectiva do meu ser. É meramente afectivo. Há uma importância estruturante em si. Não passa de expectativa circunstancialmente desmentida. Permite navegar num mar de experiências por experimentar. Depende das margens de tolerância desse mar. O meu sonho é delírio na síntese de dois polos. Procuro a antítese. Evade-se-me a tese.


Vou e venho,
Vou e venho,
E o vento sempre a rolar-me,
E agora quero agarrar-me,
Lanço a mão a procurar-me,
E é só vento que apanho...
Sebastião da Gama

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Levar a carta a Garcia

Esta manhã ligaram da livraria do eci, informando da chegada da encomenda. Munido do canhoto, aproveitei uma pausa para ir buscar os livros que aguardava. Enquanto papagueava o número que me identifica como contribuidor-pagador: permite que lhe fale de um livro? Permito, qual livro? Permita que o vá buscar. Acho que ia gostar deste. Ai sim? Pois, como leva aquele ali... Levo este também. Leva? Sorri-se enquanto pergunta como quem afirma. Já ouviu falar? Não ouvi. Pode ir à internet ver. Vou fiar-me na sua palavra. Ah, responde como quem é elogiado. Lembrei-me, então, do texto de Elbert Hubbard a propósito da carta a Garcia. Do louvor ao Rowan, de quem ninguém ouve falar. A todos os Rowans ninguém. Da lição moral que tece o Hubbie. (Bom trabalho Rowanzitos.) Da que teço eu. (A uns o trabalho, a outros a fama.) Da que tecemos nós. (           )
A lição moral é como a água benta: cada um toma a que quer... desculpem a confusão, isso é a presunção.
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Certamente não terá sido um piropo

Vinha na A1 a velocidade constante, mercê do cruise control, aproveitando para responder a algumas chamadas perdidas. Uma calmaria só incomodada pelas ocasionais rajadas de vento. Apercebo-me de que já teria ultrapassado aquele ford fiesta preto algumas vezes. Talvez não. Mantenho velocidade constante. Sou ultrapassado pelo FF, que logo se esvai assim que se coloca à minha frente. Ultrapasso-o, sem nunca usar os pés. Velocidade constante, portanto. Olho pelo retrovisor. Uma miúda, que me ultrapassa, para se deixar abrandar logo que põe o carro à minha frente. Acho que só lhe faltava travar. Mantenho velocidade constante. Olho-a enquanto a ultrapasso. Sorri-me. Acelero, sem saber se ela quereria um aceno de mão ou uma buzinadela na traseira.

Calduços e patejar

Uma semana de violência no Mediterrâneo. Outra de violência juvenil. Mais uma semana de violência nas claques. E outra de violência policial. Assim se passam os meses. As "coisas" têm que ser divulgadas e o público tem o direito a saber. Fico eu sem saber onde ficam o dever de informar e o direito a ser esclarecido. Defeito meu, certamente, que as audiências demonstram esse contentamento de quem assente. Então e as políticas europeias adotadas? Claro que não se limitam a impedir o acesso a este novo mundo. Pois não? E a agilização no funcionamento das CPCJ? E a alteração dos programas de educação para a cidadania? E o reforço dos quadros das escolas com psicólogos e assistentes sociais? E, já agora, qual a sanção para os canais televisivos que passam incessantemente as violentas imagens, focando e identificando os menores, facilitando a sua estigmatização?
E a indignação? Por onde anda o nosso direito à indignação? Esse, que será um dos mais essenciais e nobres direitos de um povo em democracia...
E do Reino Unido só o nome da pequena? E o Egipto está longe? As eleições por cá ainda vêm longe? Ide morrer longe...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Voam as vitórias, demoram-se as derrotas

Em dias como o de hoje ocorre-me que talvez devesse agendar posts. Uma espécie de escrita em diferido, para quando não me é possível desdobrar em mais Outro Ente. Poderia servir umas citações requentadas. Recomendar uns vinhos. Partilhar umas fotos da Milu. Dispersar-me por temas mais ou menos inócuos...
Porém, o meu gosto é postar o agora. Mesmo que seja apenas o meu agora, mesmo que seja só o da minha memória, ainda que não passe de imaginação.
E, como sabeis, isto são só blogues.

domingo, 17 de maio de 2015

Da mulher no casamento

No Essay VIII - Of marriage and single life, Bacon revela o papel das mulheres no casamento: "wives are young men's mistresses; companion's for middle age; and old men's nurses".
O papel dos homens, neste contexto, não é objeto de referência.

Campeões


O fim é sempre princípio

Desorientada por uma verdade que sempre lhe escapava, transtornada pelo fulgor que só a ela hipnotizava, Ursa pôs-se a dançar, rodopiando e chocando todos os pirilampos do universo. Tomada pela vertigem, duvidou que pudesse regressar à carne o que perdera o coração para conservar a razão. Nesse instante fugaz em que a dúvida revelaria a verdade, em que o raio contaminaria a escuridão, Ursa compreendeu. Então, possessa, enganchou-se no remendo e, sem artimanhas, fundiu-se com Plutão.
Afinal, também este havia sido expulso...

Moral da estória: é dos censurados que elas gostam.

sábado, 16 de maio de 2015

Diálogo entre Ursa e Platão

Tenho sede.
Na verdade, também eu.
Onde está o leite que se fez creme na caçarola?
Na verdade, foi-se.
Foi-se com a Via Láctea?
Na verdade, não se foi assim.
Foi para selar o buraco que eu deixei...
Na verdade, não há buraco.
Aquele rasgão no céu estrelado onde cintilam ideias...
Na verdade, está escuro.
Mas, não vês a luz?
Não aldrabes a verdade.
Preocupas-me!