terça-feira, 1 de setembro de 2015

Talvez não seja problema de coração

Bochechuda sem ser rechonchuda e com a idade indiferenciada e indiferente das primas solteironas, Mizá é a vizinha.
Conheci-a quando, há uns anos, ainda indeciso quanto à compra, visitava o prédio. Fiquei logo a saber que a mão cheia de fracções que lhe pertencem não são para vender, pois Mizá gosta muito de casas. "Até tenho uma igual à Gulbenkian".
Na altura, enquanto recebia a mobília para um quarto, Mizá fez questão de me entrar em casa, para dizer que não gostava de camas. "Eu gosto é de fauteuils. Fauteuils e chaise longues. Tenho fauteuils e chaise longues espalhados por todo o lado. Vou a passar e penso: ai estou cansada. E deito-me."
Num fim de tarde cruzámo-nos na Portaria, onde eu recolhia o correio e ela chegava de passear a amostra de cão. Queixou-se, então, que uns vizinhos (aqueles que ele era, que ela apareceu, que fizeram e aconteceram - ela bem tentou, mas eu sou péssimo com pessoas) não apanhavam o cocó. E logo ameaçou com um presente na caixa do correio. "Mas com um papelinho. Assinado. A dizer: fui eu que pus o cocó aqui. Eu quero que saibam que fui eu. Eu, que pus o cocó."
Foi só depois, numa dessas edificantes reuniões de condomínio, que vim a saber como Mizá chamava a polícia municipal sempre que alguém pendurava um quadro, para depois se apressar a enviar sms aos vizinhos "espero não ter incomodado". Ou como se recusava partilhar o elevador com outras vizinhas. (Embora, digam, nunca o tenha feito com vizinhos.) Ou como perseguia empreiteiros obra adentro "espero não estar a estorvar".
Mas, enfim, à Mizá, tudo se perdoa. Afinal, a vizinha é doente.
Ainda antes das férias, estava para sair da garagem quando me bateu no vidro e, mal o baixei, Mizá enfiou as bochechas no carro "Tenho andado tão mal, que nem queira saber. Agora, estou a fazer a dieta que o Champalimaud fez para mim. Até tenho uma roda de alimentos só para mim. Quer ver aqui, Senhor Dr? - ao mesmo tempo que sacava do telemóvel - Eu só posso comer para aqui. É uma rrródait (raw diet foi só depois de ter saído da garagem). E, a seguir, vou fazer uma dieta de vitamina C, daquelas que não se fazem cá".
Mas hoje, hoje Mizá apareceu rejuvenescida: "Vou fazer uma casa inspirada na casa da cascata do Corbusier e adotar um emigrante."



13 comentários:

  1. A Mizá anda a ler a 'concorrência'.
    <3

    ResponderEliminar
  2. Querida Mirone,
    Não sabia que a Mizá tinha concorrência. Quanto mais que lia.
    Um beijo,
    Outro Ente.

    ResponderEliminar
  3. Parece gostar de si... :)
    Já a minha vizinha Mizá liga para a polícia de cada vez que alguma bola vai parar ao quintal...onde já se viu, crianças a jogar à bola numa praceta!? Que coisa sem nexo...ser criança e jogar à bola!
    Boa semana, Outro Ente
    Beijos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Té,
      Mizá está em todo o lado. Chamemos o FBI.
      Uma boa semana também para si.
      Beijos,
      Outro Ente.

      Eliminar
  4. A mim parece-me mais - problema decoração...

    Boa tarde, Outro Ente!

    ResponderEliminar
  5. Meu caro Amigo, gostei de conhecer a sua vizinha Mizá, gostei da forma leve e graciosa com que nos relatou as suas peripécias, se é que assim se podem chamar.
    Agora não sei se se a senhora tem problemas de coração, já de solidão...
    Deixo um beijo e vá, seja um bom vizinho e ouça lá a senhora...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Sandra Louçano,
      A Mizá é uma personagem. Mas, no fundo, penso que tem razão quanto à solidão. Quanto a ouvi-la, acredite que ela não dá hipótese de fugir.
      Um beijo,
      Outro Ente.

      Eliminar
  6. Casa da cascata do... Corbusier? A Mizá anda um cadinho baralhada...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Anónimo Perspicaz,
      Essa é a questão que se impõe.
      Cumprimentos,
      Outro Ente.

      Eliminar