segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Memórias de arroz doce

Durante o Verão, lá na herdade, era frequente aparecerem mulheres carregando travessas de arroz doce, pedindo a minha avó que as enfeitasse para serem centros de mesas de casamentos. Provavelmente por saber escrever, a avó fazia brilharetes desenhando os nomes dos noivos com pó de canela. Talvez por isso, sempre tenha associado o arroz doce a festas. Amarelo polvilhado de castanho sabe mesmo a alegria. Assim, não admirava que, pelo meu aniversário, pedisse uma travessa de arroz doce feito pela Madrinha Docelina e enfeitado pela minha avó, em substituição do pão de ló. "Parabéns Outro Ente" era o tema. E minha avó esmerava-se nos arabescos das letras.
Deixei-me de festas de aniversário quando me faltou o arroz doce. Nesses dias, estou deliberadamente longe de casa. Como se houvesse outras razões para não comer aquele arroz doce. Como se não fosse inelutável. Como se fosse opção. Não é. 
 

15 comentários:

  1. O meu doce de referência é uma mousse feita pela minha tia, sempre servida na mesma taça desde que me lembro, acho que até o sabor seria outro se mudasse. Festa de família onde não esteja a taça castanha nem é festa.

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    1. Querida Mirone,
      Essas são as recordações que ficam. E nem precisam de ficar bem nas fotografias. Também gosto de mousse de chocolate.
      Um beijo,
      Outro Ente.

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    1. Não querida Té. Ainda não.
      Um beijo,
      Outro Ente.

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  3. Estou a imaginar essas travessas de arroz doce. Vejo-as com palavras mas também com corações.

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    1. Querida Luísa,
      Quase uns lenços de Viana bordados a canela.
      Um beijo,
      Outro Ente.

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  4. Fiquei na dúvida se devia escrever isto, porque podia dar a ideia que a intenção era arrancar uns "ai coitada" e não é nada essa a intenção. Até porque, não sou nada adepta do fado da desgraçadinha.
    Mas percebo tão bem o que escreveu, que fiquei com vontade de partilhar ,que nunca mais os aniversários foram os mesmos, sem o bolo da tia Isabel, irmã de uma das minhas avós, que fazia questão de fazer propositadamente para mim, o bolo mais delicioso que alguma vez comi e que, sem dúvida, teria um ingrediente secreto, porque nunca mais consegui sentir aquele sabor.
    Mas o que me fez deixar de festas de aniversário, foi o facto de um dos meus aniversários, ter sido passado, no funeral da minha mãe. Este é o meu motivo, para também fugir, no dia do meu aniversário.

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    1. Deixo um abraço apertado, Claudia. Há saudades que o tempo não consegue amenizar.

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    2. Muito obrigada, Picante.

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    3. Querida Cláudia Filipa,
      Os postos que escrevo são, maioritariamente, brincadeiras. Alguns pensamentos soltos e poucas provocações. O que nunca pretendo é entristecer quem me lê. Lamento ter feito presente essa recordação, embora saiba que nunca será passado em si.
      Hoje dou-lhe colo. (Não discuta. Que miúda esta tão travessa.)
      E beijos,
      Outro Ente.

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    4. Nunca serei tão "travessa", ou tão crescida, a ponto de deixar de precisar de colo de vez em quando. Ou mesmo de gostar de colo de vez em quando. Obrigada pelo colo. Foi aceite sem discussão. (Sim, o parênteses teve graça)

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  5. Devo parabenizá-lo?
    (a mim fazem-me falta os biscoitos da avó, a tarte de amêndoa da tia Sofia, os ovos moles da Maria e as batatas redondas da dona Conceição. São sabores que não voltam.

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    1. Querida Mais Picante,
      Não é dia do meu aniversário. Não quis ser o único a não escrever sobre festas de anos...
      (As "batatas redondas" não sei o que são, mas perco-me por ovos moles. Na faculdade tinha uma amiga de Aveiro que muitas vezes mos ofertava. As saudades que tenho dela.)
      Um beijo,
      Outro Ente.

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  6. Bom dia,
    Revi-me e fez-me sorrir, pois lembrei-me da aletria da minha avó, julgo que era o único doce que fazia, mas nunca mais comi uma aletria como aquelas, fazia porque lhe apetecia não era numa data especifica (até gosto mais assim), fez-me recuar 25 anos e gostei, percebo o porquê de gostar vir aqui lê-lo.
    Abraço e se for caso disso parabéns!

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    1. Meu caro Urso Misha,
      Há memórias que nos esquecemos de recordar.
      (Não foi dia de aniversário.)
      Um abraço,
      Outro Ente.

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