terça-feira, 7 de julho de 2015

Amo de memória

Da terceira margem da barragem onde me encontro concebo perder-me sem partir. A deformação efabulada do promontório final confunde os mais orientados. A fachada do templo nunca foi familiar e jamais será intacta. Talvez se escore em fendas abertas pelos anos mais negros e sustente alicerces distorcidos por inamovíveis raízes.
Repouso em troncos vivos, enquanto a alucinação não se esfuma e me faz acreditar que nada nos é inaceitável. Vagueio por entre regras e evito fronteiras. Entretanto, entre nós, todas as separações são falseadas. Absurda é a imagem grotesca da desconfiança trazida pela ausência em forma de espólio indulgente.
O equívoco derroga-nos.

(Bruce Davidson)

7 comentários:

  1. Caro Outro Ente,
    Nem nos derrogue, e menos ainda nos derrote, o equívoco. Não existe maior ironia do que a dos desencontros provocados por mal-entendidos.
    Um beijo de boa noite,
    LP.

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    1. Isto é tudo gente muito erudita, e eu assim vou-me já embora.
      ;)
      Bom dia meninos dois!

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    2. Cala-te, sabes lá o que eu tive que espremer aquele neurónio para tecer um comentário que não parecesse o que é: de analfabeta. E que, como sempre, acertou ao lado.
      :) Bom dia aos dois também.

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  2. Memória
    I

    Na cristalina, líquida presença,
    crescente lua no abismo enquanto
    o mar se cala, desconheço a margem
    onde me espera no desejo
    esguio do poente a deusa branca...

    À ínfima visão dum lírio encosto
    o meu soluço! O espaço é grande...
    Não invoco o lugar mas a verdade
    surge aquém da espera...

    Gaivotas sussurrantes, deixo a música
    morrer, pegadas frescas, desperdícios
    quentes na relva da minha alma...

    II

    Quando se oculta julgando a noite
    indefesa enorme, a fugidia
    estrela me ilumina e desce!

    Vem até mim, quebrada a natural
    cadência do seu mundo, e cresce... cresce...
    Tentáculos de luz me envolvem. Comovido,
    aperto em minhas mãos o elanguescente
    ardor do seu chegar...

    III

    Reconquisto agora o teu rosto, um horizonte,
    silêncio de grito suspenso, labirinto,
    mais desfeito
    no hálito das nuvens...

    Me surges tão sem ti
    que envolve o dia a espessura deste longe...
    E afogo assim na íntima, na única
    beleza do teu rasto,
    o meu soluço de água...

    António Salvado, in "Recôndito"

    Boa noite, caro Ente. :)

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    1. Maria do lápis preto, a poesia deve-te muito.

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    2. A mim? Ora! Eu é que lhe devo muito!

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  3. Entre o bom humor de Cara Linda, a acutilância de Uva Passa e a dádiva de Maria Eu, resta-me agradecer.
    Boa noite,
    Outro Ente.

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